Opinião

Inteligência artificial e o futuro brasileiro: entre a técnica, o poder e a construção de uma nação
O futuro brasileiro na era da inteligência artificial dependerá, acima de tudo, da capacidade de transformar o avanço tecnológico em instrumento de cidadania, conhecimento e emancipação social.
Por Laercio Damasceno - 28/06/2026


Imagem: Reprodução


A inteligência artificial (IA) deixou de ser uma promessa futurista para se tornar uma das principais forças transformadoras do século XXI. Dos sistemas de saúde às finanças, da educação à segurança pública, algoritmos e máquinas inteligentes estão redefinindo a maneira como as sociedades produzem riqueza, organizam o trabalho e distribuem poder. Para o Brasil, entretanto, a revolução tecnológica coloca uma questão decisiva: a inteligência artificial servirá para aprofundar as desigualdades históricas ou poderá se tornar um instrumento de desenvolvimento e emancipação nacional?

Essa pergunta encontra importantes pistas nas reflexões do geógrafo brasileiro Milton Santos e dos filósofos Michel Foucault e Martin Heidegger, cujos pensamentos permitem compreender os desafios éticos, políticos e sociais da era digital.

Milton Santos, um dos maiores intelectuais brasileiros do século XX, analisou a globalização como um processo contraditório. Em sua obra, ele demonstrou que o desenvolvimento tecnológico não é neutro; ele se organiza segundo interesses econômicos e relações de poder. Para o geógrafo, a técnica pode servir tanto à libertação humana quanto à ampliação das desigualdades.

No contexto da inteligência artificial, as advertências de Milton Santos tornam-se especialmente relevantes. A maior parte das tecnologias de IA é desenvolvida por grandes corporações globais, concentradas em poucos países e detentoras de imensos bancos de dados. Se o Brasil permanecer apenas como consumidor dessas tecnologias, poderá aprofundar sua dependência econômica e tecnológica, tornando-se ainda mais subordinado aos centros globais de inovação.

Por outro lado, Santos também acreditava na possibilidade de uma "outra globalização", baseada na solidariedade, no conhecimento compartilhado e no fortalecimento das capacidades locais. Sob essa perspectiva, a inteligência artificial pode ser uma ferramenta poderosa para enfrentar problemas históricos brasileiros, desde a melhoria da educação pública até a modernização do sistema de saúde e o aumento da produtividade agrícola.

A IA pode, por exemplo, contribuir para diagnósticos médicos mais rápidos em regiões distantes, otimizar políticas públicas, combater o desmatamento e auxiliar no planejamento urbano. Entretanto, para que isso aconteça, o país precisa investir em ciência, universidades, formação de profissionais e soberania digital.

A reflexão de Michel Foucault amplia ainda mais esse debate. O filósofo francês dedicou grande parte de sua obra à análise das relações entre conhecimento e poder. Para ele, toda forma de produção de saber está associada a mecanismos de controle social.

Na sociedade digital, os dados tornaram-se uma das principais fontes de poder. Plataformas tecnológicas e sistemas de inteligência artificial coletam informações sobre hábitos de consumo, deslocamentos, preferências políticas e comportamentos individuais. A capacidade de monitorar milhões de pessoas em tempo real cria novas formas de vigilância que lembram o conceito foucaultiano do "panoptismo" – um sistema no qual os indivíduos se comportam como se estivessem permanentemente sendo observados.

No Brasil, essa reflexão é particularmente importante. O avanço da IA pode contribuir para a eficiência administrativa e para a segurança pública, mas também pode gerar riscos relacionados à privacidade, ao uso indevido de dados pessoais e à discriminação algorítmica. Sistemas de reconhecimento facial, por exemplo, já demonstraram, em diferentes partes do mundo, índices mais elevados de erros quando aplicados a populações negras e grupos socialmente vulneráveis.

Foucault nos convida, portanto, a perguntar quem controla os dados, quem programa os algoritmos e quais interesses estão presentes nas decisões tomadas pelas máquinas. A inteligência artificial não é apenas uma questão técnica; ela é também uma questão política.

As contribuições de Martin Heidegger oferecem uma terceira dimensão para essa discussão. O filósofo alemão via a técnica moderna como uma forma específica de relação entre o ser humano e o mundo. Em seu célebre ensaio "A questão da técnica", Heidegger alertou para o risco de que a tecnologia transforme tudo – inclusive os próprios seres humanos – em meros recursos disponíveis para exploração.

A inteligência artificial leva essa preocupação a um novo patamar. Em uma sociedade cada vez mais automatizada, existe o perigo de reduzir as pessoas a conjuntos de dados, métricas de desempenho e perfis de consumo. O ser humano corre o risco de perder sua singularidade diante de sistemas que privilegiam eficiência, velocidade e cálculo.

Para Heidegger, o maior perigo da técnica não está nas máquinas em si, mas na incapacidade humana de refletir criticamente sobre o seu uso. Uma sociedade que delega suas decisões exclusivamente aos algoritmos pode abrir mão de aspectos essenciais da experiência humana, como a criatividade, a responsabilidade moral e a capacidade de julgamento.

Nesse sentido, o futuro da inteligência artificial no Brasil depende menos da tecnologia em si e mais das escolhas políticas e culturais que a sociedade brasileira fará nas próximas décadas.

O país possui condições extraordinárias para participar da revolução tecnológica global. Possui um sistema universitário relevante, centros de pesquisa de excelência, uma comunidade científica reconhecida internacionalmente e uma das maiores populações conectadas do planeta. Entretanto, enfrenta desafios igualmente gigantescos, como a desigualdade educacional, a exclusão digital e a baixa capacidade de investimento em ciência e inovação.

A construção de uma estratégia nacional de inteligência artificial exige a articulação entre governo, universidades, setor produtivo e sociedade civil. Mais do que importar tecnologias prontas, o Brasil precisa desenvolver capacidade própria de pesquisa, criar mecanismos de regulação democrática e garantir que os benefícios da IA sejam distribuídos de maneira socialmente justa.

As reflexões de Milton Santos, Michel Foucault e Martin Heidegger convergem para uma mesma conclusão: a tecnologia nunca é um destino inevitável. Ela é uma construção humana e, portanto, pode ser orientada por diferentes projetos de sociedade.

A inteligência artificial poderá contribuir para um Brasil mais inovador, inclusivo e soberano, desde que seja colocada a serviço do desenvolvimento humano e da redução das desigualdades. Caso contrário, corre-se o risco de reproduzir antigas dependências e criar novas formas de exclusão e controle.


O futuro brasileiro na era da inteligência artificial dependerá, acima de tudo, da capacidade de transformar o avanço tecnológico em instrumento de cidadania, conhecimento e emancipação social. A questão decisiva não é se as máquinas se tornarão mais inteligentes, mas se a sociedade brasileira será suficientemente sábia para orientar essa inteligência em benefício do bem comum.


Laercio Damasceno
Jornalista e Diretor Responsável do Site MaisConhecer.com

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional do maisconhecer.com 

 

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